quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Coisas do caminho

No caminho que agora de carro todos os dias faço para o trabalho passo por uma zona que se pode chamar de rural. Casas do campo, casas de antigos e actuais agricultores e não raras vezes há umas vaquinhas bastantes felpudas a pastar. 
No alpendre de uma dessas casas reparei a certa altura que havia uma cadeira de plástico com uma almofada em que todas as manhãs um gato dormia. No segundo que o via o bicho parecia realmente satisfeito. Parece que a cadeira foi ali posta de propósito para ele. Desde que entramos no Inverno a cadeira começou por ficar vazia e agora desapareceu de vez, tal como o gato. Espero que o bicho tenha encontrado um sítio bem quente para dormir.

Nos meus longos meses de viagens de autocarro diárias para o trabalho fui criando rotinas de onde me sentar de forma a estar estrategicamente posicionado para sair rapidamente na minha paragem e apanhar o autocarro que me levaria ao escritório, o tempo era crucial porque às vezes tinha 30 segundos entre os dois.  
Com o tempo ia decorando, por força de as ver todos os dias, a cara das pessoas. Já tinha uma vaga ideia das pessoas que entravam pelo caminho.

Um dia reparei num casal. Os dois estavam ali na casa dos 40, acho eu, mas eu sou mau a avaliar a idade das pessoas. Todos os dias entravam no mesmo sítio, de mão dada e sentavam lado a lado. Os dois tinham um ar sofisticado, pinta de executivos mas com um ar querido, ar de verdadeiramente apaixonados. Durante a viagem de autocarro não deixavam a mão um do outro. Cada um ia a ler algo, jornal ou tablet, ou ia consultando o telemóvel mas a verdade é que não largavam a mão um do outro. Não era aquele dar as mãos por obrigação, parecia-me, era dar as mãos porque "eu amo-te e estou unido a ti, nunca me largues a mão".
Chegado à sua paragem de destino, um deles levantava-se e despediam-se com um beijo. A despedida era feita sem dramas mas dava-me a sensação de que eles sabiam que era só mais um dia de trabalho e no fim do dia voltavam para os braços um do outro, um "à bientôt mon amour"!
Tudo isto parece banal e que milhões de pessoas fazem todos os dias mas aquele casal parecia-me especial, tão genuíno e sereno que por isso me captou a atenção.
Deixei de andar de autocarro e nunca mais os vi. Espero que continuem com todo aquele amor, aquela ternura, cumplicidade, de mãos dadas. 

Gostava de ter algo assim.

Oh God, I need a wishkey or a gin...


10 comentários:

  1. PM, fiquei contente por teres escrito este texto tão sereno, feliz, que conforta.
    No fundo, são estes rasgos, a que às vezes chamam detalhes, que compõem os dias.
    Do que tu gostavas é do que todos gostamos e andamos à procura, salvo os que já lá chegaram. Para mim, é extraordinário que o digas com tanta frontalidade.
    Beijos

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    1. Eu não sou nada de escrever estas coisas assim mas por acaso lembrei-me destas pessoas e como tudo aquilo parecia tão natural que acho que era bonito.
      Eu não tenho pruridos em dizer estas coisas e o que gostava, sejam boas ou más. Por vezes criticam-me pelo que digo mas eu acho que, muitas vezes, é porque eu digo o que as pessoas pensam mas não têm coragem de dizer em voz alta.

      Beijos

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  2. Pequenas rotinas que nos tornam testemunhas de vivências únicas, que nos transportam para este género de reflexões e nostalgia.
    Bom fim d semana PM :-)

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    1. Coisas que me vão distraindo da monotonia dos dias.

      Bom fim-de-semana Marie ;)

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  3. um pequeno lapso ortográfico, corrija a outra bebida alternativa ao gin. isto dos anglicismos troca-nos as voltas, mais vale uísque :-)
    AdN

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  4. Desde que seja bom eu bebo dos dois ;)

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  5. Feliz Natal cheio de coisas boas!
    Beijinho, PM!

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    1. Obrigado Marie. Espero que o teu tenha sido bom :)

      Beijos

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  6. Por acaso à medida que ia lendo o teu texto, ia imaginando o casal e fez-me lembrar os idosos do "The Notebook". Esses amores são lindíssimos...

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    1. Nao me batas nas eu nunca vi o Notebook. Aquele amor (acho eu que era) era bonito sim senhor.

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